“No Brasil há dias bons, dias ruins e também há Dias Toffoli. Esta frase, que li em algum tweet, pode ser complementada atualmente por outra: existe a minha moral, a sua moral e Alexandre de Moraes. Estamos nesse nível atualmente… E olha que são 2 ministros da Corte Máxima do país!

A questão já era muito clara, desde o princípio. A dupla em comento, agindo em conjunto, iniciou suas presepadas lá no longínquo ano de 2019: me refiro ao malfadado inquérito das ‘fake news’.

Veja, quando o aludido inquérito completou um ano de vida, escrevi aqui neste mesmo Blog uma coluna (no início do ano de 2020!!) intitulada: “Nossa Democracia Acabou! (se é que existiu)”[1]. A vantagem de ter um Blog ainda ativo (embora sem leitores… rs) é ter esse tipo de registro.

Naquela coluna, para citar apenas um breve trecho, eu esclarecia o seguinte aos amigos leitores:

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), min. Dias Toffoli, invocou o artigo 43 do regimento interno daquela Corte (que data de 27/10/1980) para instaurar um inquérito policial ‘de ofício’. Nenhum problema se esse dispositivo não fosse flagrantemente inconstitucional!! Afinal, o órgão julgador não pode ser, ao mesmo tempo, investigador. Pior, designou ele, como relator, o min. Alexandre de Moraes, o que implica numa segunda inconstitucionalidade, afinal, não houve sorteio. Essa escolha, ad hoc, traz a odiosa figura do ‘tribunal de exceção’, combatido com veemência pela CF/88. Então se instaurou o Inquérito nº 4.781, cujo objeto seria apurar “fake news”, bem como “ofensas e ameaças contra integrantes do STF”. Ou seja, os julgadores também seriam as próprias vítimas, além de investigadores. Tudo muito errado, se considerarmos uma democracia. Aliás, o grande problema, aquele que hoje está fora do noticiário, é que esse inquérito foi instaurado em 14/03/2019 (…). E a primeira medida do min. relator foi censurar reportagem jornalística do site ‘O Antagonista’ e a matéria de capa da revista ‘Crusoé’, que citavam Toffoli como sendo o “o amigo do amigo de meu pai” na planilha de codinomes dos beneficiários de propinas pagas por Marcelo Odebrecht… Tudo conforme reportagem da época publicada no Correio Brasiliense[2]. Além de ter multado tais veículos de imprensa em R$100 mil, Moraes ainda determinou que a Polícia Federal cumprisse mandados de busca e apreensão contra oito pessoas que criticaram o Tribunal nas redes sociais. Tudo isso motivou procuradores, deputados, senadores e entidades de classe, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Transparência Internacional, a se manifestaram contra o inquérito e as decisões nele tomadas pelo Tribunal, àquela época.

Pois bem, 07 (SETE) anos depois, o referido inquérito continua aberto[3], operando a todo vapor, investigando tudo e todos, de modo sigiloso, ao bel prazer do relator, o min. Alexandre de Moraes. Ali já se investigou de tudo – apesar de seu escopo inicial ser “ataques e ameaças ao STF”, seu objeto passou a incluir: esquemas de financiamento para impulsionamento de conteúdo ofensivo e falso nas redes sociais, as chamadas ‘milícias digitais’ (redes organizadas que atuariam de forma coordenada para desestabilizar as ‘instituições democráticas’, com foco no chamado ‘gabinete do ódio’ bolsonarista), diversos ‘atos antidemocráticos’ (em especial a organização e financiamento de atos de rua que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF), apuração de acesso indevido a dados sigilosos da Receita Federal envolvendo autoridades da Corte e seus parentes (ou seja, dos próprios ministros do STF), dentre outros fatos que o ilustre relator entendeu por bem enfiar naquele mesmo inquérito. Ele teve como alvos, principalmente: políticos (como deputados federais), influenciadores digitais (bolsonaristas) e empresários. As medidas adotadas e cumpridas pela Polícia Federal incluem quebras de sigilo fiscal e bancário, oitivas (depoimentos), buscas e apreensões, prisões e monitoramento por tornozeleira eletrônica – dentre outras.

Amigo leitor, se você não é paquita de juiz, se não bate palma para tiranias e censuras, é impossível (repito: IMPOSSÍVEL) concordar com uma arbitrariedade como esse inquérito do fim do mundo, que já dura sete anos e pode investigar o que o relator bem quiser! E aqui me refiro às normas jurídicas nacionais, em especial a Constituição Federal de 1988. Se você é cego partidário ao ponto de justificar tudo isso apenas porque as costas dos adversários arderam mais que a dos seus correligionários, lembre-se que o chicote sempre pode trocar de mãos. Afinal, tirania é tirania

Eis que, agora, a dupla dinâmica em questão, os super-heróis que ‘salvaram a democracia’, é pega no olho do furacão do caso do Banco Master. Vou citar apenas alguns problemas[4], para refrescar a memória dos leitores, vejamos: 1)inicialmente, alegando que havia citação a um deputado da Bahia, o min. Dias Toffoli decretou altíssimo nível de sigilo das investigações contra o Banco Master. Logo em seguida, atendendo a um pedido da defesa de Daniel Vorcaro (após viajar com um dos advogados do próprio banco, num jatinho particular, para assistir à final da Libertadores[5]), o ministro manteve o processo no STF e centralizou toda a investigação; 2) Na véspera de Natal, Toffoli determinou uma acareação entre o dono do Master, o ex-presidente do BRB e o diretor de fiscalização do Banco Central, que acabou cancelando, depois de muitas críticas; 3) Em janeiro, depois de uma nova fase da Compliance Zero, numa decisão incomum, o min. Dias Toffoli determinou que as provas recolhidas pela Polícia Federal fossem armazenadas no STF – tais provas só poderiam ser examinadas por peritos indicados por ele mesmo (!!!); 4) No dia seguinte, ele reduziu de cinco para dois dias o prazo para que a Polícia Federal tomasse o depoimento de 8 investigados; 5) Em outra decisão polêmica, o ministro tornou sigilosos os dados do banqueiro Daniel Vorcaro que haviam sido quebrados pela CPMI do INSS; e 6) no dia 12/02/2026, antes de deixar a relatoria (por livre e espontânea pressão pública – apesar de grande resistência dentro do ‘STF Futebol Clube’[6]), o min. Dias Toffoli tomou mais uma decisão polêmica: ordenou que a Polícia Federal enviasse ao STF o conteúdo de todos os celulares e de outras mídias periciados.

Segundo matéria da CNN Brasil[7], o próprio Toffoli confirmou ser sócio (há vários anos) da Maridt, empresa que controlava 33% do Resort Tayaya. Trata-se de uma sociedade anônima de livro, em que o nome dos acionistas não é acessível a terceiros, como em companhias abertas. Toffoli também teria dito a interlocutores que recebeu dinheiro da empresa Maridt após a venda de sua participação no Resort Tayaya a um fundo ligado ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A informação foi revelada pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo. O valor do negócio – do fundo ligado ao Banco Master na compra de parte do Resort Tayaya – segundo a Revista Oeste: R$35 milhões[8]. Isso mesmo, você não leu errado, são R$35 MILHÕES!!

De outra banda, soube-se por diversas notícias recentes da imprensa[9], que a esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci, firmou com o mesmo Banco Master contrato de honorários que previa o pagamento de R$129 milhões por consultorias e atuações jurídicas junto a diversos órgãos relacionados aos interesses da instituição e de seu presidente, Daniel Vorcaro. Vamos repetir, para não perder a conta, amigo leitor: são R$129 MILHÕES!! Em nota publicada 2 dias atrás, o escritório afirmou que teriam sido prestados serviços de “ampla consultoria e atuação jurídica”, realizados por uma equipe de 15 advogados e com o apoio de outros três escritórios especializados, contratados sob sua coordenação. O site do Barci de Moraes Sociedade de Advogados mostra que cinco dos profissionais citados são advogados juniores. Também integram a equipe três familiares de Moraes: a esposa, Viviane Barci, e os dois filhos, Giuliana Moraes e Alexandre Moraes. Ocorre que diversos especialistas estranham o porte do escritório para serviços desse tipo, bem como o elevadíssimo valor pago pelo banco pelos supostos serviços prestados, que somam cifras muito fora do padrão, considerado o pro labore cobrado por grandes bancas do país.

Mas, a cereja do bolo da reportagem pinçada acima (embora existam dezenas disponíveis no Google a respeito) é que, nas palavras de Marsiglia: “o escritório assumiu que fez a implementação do compliance dentro do Banco Master”. Porém, “o Vorcaro foi preso justamente em uma operação [da Polícia Federal] chamada de ‘Compliance Zero’” – enfim, a famosa piada pronta!!

Há ainda reportagem publicada no jornal O Globo[10], que trouxe prints de mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro enviadas ao min. Alexandre de Moraes horas antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez (no dia 17/11/2025). Tais mensagens foram retiradas do celular do dono do Banco Master por meio de análise técnica da Polícia Federal, cujo exame permite visualizar, ao mesmo tempo, a tela de whatsapp com as mensagens e as imagens de visualização única nela contida. No material exibido pelo Globo, constam, no envio das mensagens, o número e o nome do min. Alexandre de Moraes, que foi conferido e checado pelo jornal. Vorcaro, referindo-se à ordem que determinara sua prisão, teria então indagado a Moraes: “conseguiu bloquear?”[11].

Para encerrar, incluo aqui uma notícia de ontem, também amplamente divulgada pela mídia[12], que nos informa o seguinte: o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pagou uma degustação de whisky em Londres, para autoridades de Brasília quando ele financiou um ‘fórum jurídico’ na capital britânica, em abril de 2024. Entre os participantes do convescote, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O custo da degustação está registrado por US$ 640.831,88 – o equivalente a R$3,3 MILHÕES (no dólar da época).

Enfim, é aqui que viemos parar: o Brasil-Várzea, onde joga o STF Futebol Clube. Ali há heróis, vilões, patrocínio Master, apito do juiz amigo e, claro, torcida organizada!! Ocorre que, diferente de espetáculos futebolísticos, cada tento marcado implica num gol contra o povo brasileiro. Triste!

Referências:

[1] https://ricardodantas.blog.br/nossa-democracia-acabou-se-e-que-existiu/

[2] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/04/17/interna_politica,749980/inquerito-contra-fake-news-e-censura-a-imprensa-desgastam-o-stf.shtml

[3] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/oab-renova-pedido-pelo-fim-do-inquerito-das-fake-news-em-reuniao-com-fachin/

[4] https://cbn.globo.com/politica/noticia/2026/02/13/relembre-as-decisoes-controversas-de-toffoli-na-relatoria-do-caso-master.ghtml

[5] https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2025/12/07/ministro-do-stf-dias-toffoli-viajou-para-final-da-libertadores-com-advogado-do-caso-banco-master.ghtml

[6] https://www.metropoles.com/blog-do-noblat/artigos/stf-futebol-clube-por-mary-zaidan

[7] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/toffoli-diz-que-dinheiro-recebido-veio-de-venda-de-resort-afirma-jornal/

[8] https://revistaoeste.com/politica/fundo-ligado-a-vorcaro-investiu-r-35-mi-em-resort-com-participacao-do-ministro-dias-toffoli/

[9] https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/esposa-de-moraes-confirma-indiretamente-valores-exorbitantes/

[10] https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/03/06/mensagens-trocadas-entre-vorcaro-e-alexandre-de-moraes-foram-extraidas-pela-pf-diz-jornal.ghtml

[11] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/vorcaro-trocou-mensagens-com-moraes-no-dia-em-que-foi-preso-diz-jornal/

[12] https://www.infomoney.com.br/politica/vorcaro-pagou-degustacao-de-whisky-com-moraes-gonet-toffoli-e-diretor-geral-da-pf/

FOTO: https://oglobo.globo.com/opiniao/carlos-alberto-sardenberg/coluna/2026/03/vorcaro-preso-mostra-que-instituicoes-funcionam.ghtml

Ricardo Dantas

Ricardo Dantas

Advogado