Amigo leitor, o tempo passa. É assim que, ao chegar o pleito de 2022, Bolsonaro vai cair. Então, temos que cuidar de planejar o futuro do país. Daí, como a vida também ensina com o correr do calendário, convém mirar naquilo que está dando certo pelo globo e deixar de lado tantos equívocos e conceitos imprestáveis que ainda se colocam em discussão por aqui. O fato é que nós estamos décadas atrasados, talvez um século ou mais! Precisamos avançar (e logo).

Já passamos de 537 mil óbitos em solo nacional – uma tragédia sem precedentes, causada pela pior pandemia em 100 anos no mundo, mas, cujos resultados poderiam ter sido amainados por uma política séria por parte do atual governo federal. Infelizmente, Bolsonaro preferiu se agarrar a um discurso negacionista, apostando numa ‘imunidade de rebanho’ e, portanto, negligenciando a única via de escape desse morticídio natural, que é a compra e aplicação de vacinas. Nós até estamos melhorando nesse quesito, mas, perdemos alguns meses preciosos.

Sucede que, aproveitando-se dessa terra arrasada, deixada pela pandemia, aparecem os bons e velhos populistas de esquerda, com a vendagem de seus conhecidos milagres econômicos. Esse cenário é recorrente no planeta – quer dizer, não é uma exclusividade brasileira – mas, por aqui, graça como quase em nenhum outro canto do mundo. É um moto-contínuo de baboseiras.

Veja bem leitor: eu entendo perfeitamente quem é de esquerda. E aqui não me refiro à esquerda dita ‘moderada’ ou ‘centro-esquerda’ (ou seja, aqueles que são ‘social democratas’). A esquerda sobre a qual escrevo é aquela baseada em ideias ‘socialistas’ ou ‘comunistas’. Enfim, o pessoal que tem na estante apenas O Manifesto Comunista e/ou O Capital de Karl Marx.

Durante a faculdade eu acreditava na chamada ‘luta de classes’ e na planificação da sociedade, numa distribuição igualitária de riquezas – enfim, uma espécie de Céu (só que na Terra). Acontece que isso não dá certo. E o ser humano é o culpado! Primeiro porque é ambicioso por natureza. Segundo porque é apegado ao livre arbítrio. E terceiro porque essa ideia já foi testada em diversos lugares do planeta, em todos os continentes, em várias épocas distintas. E o resultado foi sempre o mesmo: fome e opressão. Então, não adianta discutirmos a implantação de ‘novas práticas’ e ‘novas políticas’, quando elas já provaram falhar miseravelmente, correto? A resposta deveria ser “SIM”. Mas, no Brasil, até a soma de 2 mais 2 não coincide com 4…

Karl Marx foi uma figura importantíssima na história da humanidade, mas, é preciso colocá-lo com suas ideias dentro do contexto em que viveu. Vejamos esse ponto com mais vagar.

Primeiramente, fomos libertos do absolutismo pelas revoluções ditas ‘burguesas’, quando incorporamos diversos direitos ditos de 1ª dimensão, ou direitos individuais (que depois vieram a ser consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos[1], de 10/12/1948). Quer dizer, agradeça todos os dias pelo fato de que pessoas revolucionárias e liberais colocaram suas cabeças a prêmio contra os reis e seus exércitos para que seu direito à vida, à liberdade, à propriedade, à privacidade, à presunção de inocência etc., hoje encontrem-se petrificados no artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Sem falar, é claro, na isonomia que prescreve que todos são iguais perante a lei. Isso defende você, leitor, dos arroubos de quaisquer governantes.

Acontece que Marx viveu (entre 1818 e 1883) no período logo após essas revoluções liberais. E pôde testemunhar a revolução industrial e a falta de uma regulação mínima para essa nova modalidade de produção e geração de riqueza. Então, vendo o povo sendo espoliado e submetido a condições totalmente degradantes de trabalho, refletiu e pensou fora da caixa. Todos os direitos ditos de 2ª dimensão, ou seja, direitos sociais como os conhecemos hoje (p.ex. saúde, educação, direitos trabalhistas e previdenciários etc.) encontram assento nas ideias econômicas de Marx. Quer dizer, trata-se da densificação do princípio da igualdade, na medida em que o torna palpável e aplicável não só nas relações entre indivíduo e Estado, mas, também nas relações entre os próprios indivíduos. É assim que parte da riqueza gerada na economia financia uma importante parcela dos direitos positivos, que melhoram a vida de todos os cidadãos. Marx, sob essa ótica, implicou numa ‘correção’ do conceito liberal clássico.

Acontece que as ideias econômicas de Karl Marx, por filosóficas que são, embasaram muitas outras coisas, especialmente revoluções políticas – socialistas e comunistas. Foi aí que a coisa se perdeu. Afinal, Marx tinha um ideal utópico de governo do proletariado, que implicaria na distribuição equânime da riqueza entre o povo. Essa ideia é muito atraente, principalmente entre jovens e universitários. Ocorre que, por diversas razões, ela não funciona! Não há um caso sequer de revolução socialista que tenha levado à ‘terra prometida’ vislumbrada por Karl Marx. Então, dizer que nesses locais as ideias de Marx ‘foram distorcidas’ ou ‘mal aplicadas’ é como ser cristão fervoroso, mas, perante as legiões romanas, negar seu líder diante da cruz. Convém analisar os fatos e, com base neles, verificar que aquele mundo proposto por Marx não existe. Aliás, é preciso muita coragem para entender e internalizar que, mais que isso, tal mundo não existirá – porque é ontologicamente impossível.

Para começar do básico, que são os direitos humanos – tão vocalizados e defendidos por aqueles que são da esquerda mais xiita, cuja palavra da moda hoje é “genocídio” –, vejamos o ranking dos 10 maiores morticídios praticados contra um povo, veiculado pela Revista Superinteressante[2]: em 1º lugar está o líder comunista Mao Tse-tung (1893-1976), que entre 1958 e 1962 liderou o “Grande Salto Adiante”, uma reformulação econômica que pretendia transformar a China em uma potência industrial – mas que, no fim, provocou um colapso que levou pelo menos 40 milhões de pessoas a morrer de fome. Entre 1966 e 1969, uma nova perseguição: a chamada Revolução Cultural caçou minorias, seguidores de qualquer religião e cidadãos delatados por questionar o regime. O país ficou cheio de campos de concentração, e as famílias eram obrigadas a pagar pela bala usada para matar os condenados. O total de mortos estimado é de 45 a 70 milhões de pessoas. E o pior: tal genocídio foi praticado contra o próprio povo chinês. Em 3º lugar, logo depois de Gengis Khan (o 2º no ranking), aparece a União Soviética de Josef Stalin. O tirano russo adotou técnicas variadas para perseguir rivais políticos. Entre 1932 e 1933, por exemplo, forçou a Ucrânia e o Cazaquistão a exportar todos os seus alimentos, matando os nativos de fome. Populações inteiras foram desalojadas e exiladas na gelada Sibéria. Estima-se que entre 20 e 25 milhões tenham sido exterminadas sob o jugo comunista soviético, a esmagadora maioria dentre sua própria população. A Alemanha nazista de Adolf Hitler aparece em 4º lugar do aludido ranking, por ter dizimado 6 milhões de judeus e 10,5 milhões de eslavos (também perseguiu gays, ciganos, romenos e sérvios). Quando o mundo descobriu o horror dos campos de concentração nazistas, a palavra genocídio sequer existia. Nunca antes, nem depois, um governo organizou uma infraestrutura tão eficiente em matar pessoas – e mesmo essa máquina da morte estruturada por Hitler fica aquém, em números absolutos, dos genocídios verificados em países comunistas. Isso é parte da História amigo.

A questão é simples: num regime socialista o povo perde sua liberdade, é obrigado a morar e trabalhar onde o Estado determina, e acaba passando fome em algum momento, que vem logo após a euforia revolucionária e à gastança sem fim promovida pelo governo. A razão é aritmética: um dia o dinheiro acaba, o Estado quebra, e não há iniciativa privada ou empresas organizadas para seguir movendo a economia (que era impulsionada artificialmente pelo próprio Estado). Então, quando a conta chega e começa a faltar o básico: como comida, água, luz, e até papel higiênico, qualquer crítica ou protesto é duramente reprimido por aqueles que estão no Poder. Aliás, muito antes já foram dizimados ou degredados os opositores políticos do regime em vigor. Deste modo, o povo vira prisioneiro do próprio país aonde se morre de fome…

Vejamos alguns exemplos mais recentes da hecatombe perpetrada nos países socialistas:

1) A Venezuela[3], cada vez mais isolada em termos políticos e econômicos, e consequentemente entrando no seu oitavo ano consecutivo de recessão, tem hoje 96,2% de sua população vivendo na pobreza e 79,3% em situação extrema. Segundo o Banco Mundial, situação de extrema pobreza significa viver com menos de US$1,90 por dia!! Segundo dados da Encovi (Enquete sobre Condições de Vida)[4], pesquisa realizada por um consórcio de universidades venezuelanas em 2017, 64,7% da população perdeu uma média de 11,4 Kg apenas em 2016, por conta da desnutrição. O país, que tinha a maior renda per capita da América Latina até 1998 (um ano antes da chegada de Hugo Chávez ao Poder), foi à completa ruína em apenas 20 anos. E seguiu piorando nos últimos cinco anos (após a pesquisa). Para se ter ideia, o povo está indo embora do país a pé, levando seus filhos pequenos e carregando o que mais consegue nas costas.

2) Cuba, entrou em grave crise nos anos 1990[5], quando a queda da União Soviética deixou a ilha sozinha no cenário internacional, perdendo toda a ajuda que recebia do bloco. A partir de então, alimento, transporte, vestuário e eletricidade se tornaram artigos de luxo, até que Havana encontrou em Caracas um novo aliado. Mesmo assim, entre 1991 e 1995 os habitantes da ilha caribenha perderam em média 5 kg[6], quando passou a viger o chamado “período especial”. Essa escassez generalizada de produtos alimentícios e de higiene ganhou novo recrudescimento de 2018 pra cá – faltam inclusive sabonete e pasta de dente por lá. O governo anunciou um novo plano de racionamento “temporário” para “conseguir maior equidade na distribuição de alguns produtos” e “evitar a acumulação compulsiva”. Veja um relato à BBC[7]: “outro dia eu estava na fila porque conseguiram cabeça, pata e língua de porco, e dois homens começaram a se agredir. A polícia teve que intervir. É incrível que depois de 60 anos da revolução, as pessoas quase se matem para comprar uma língua de porco”, disse Pinar del Rio Teresa García, de 86 anos. Os cubanos saíram às ruas no dia 11/07/2021 para protestar contra a pior crise econômica em 30 anos[8]. Ou seja, o que estava ruim acaba de piorar, e muito, com a pandemia. Agora, o povo conta presos políticos às dezenas e busca desaparecidos[9]. A reação estatal foi brutal…

3) A China, que em 1950 invadiu o Tibete[10] e já matou mais de 20% da população daquele povo budista (ordeiro e pacifista, como se sabe), HOJE patrocina o maior genocídio de que se tem notícia – já deteve mais de 1,2 milhão de pessoas do povo uigur em campos de concentração na região noroeste de Xinjiang, onde vêm sendo relatados assassinatos, tortura, trabalho forçado e abuso sexual. Pior: a China está patrocinando uma esterilização em massa dos uigures, que adotam a religião islâmica, de modo que, à semelhança dos tibetanos, nenhum tipo de oposição possa florescer. No caso, a religiosidade desse povo representa uma possível ameaça ao regime ditatorial chinês. A reportagem completa da Revista Superinteressante[11] é de dar náusea, infelizmente! Inclusive a China foi objeto de sanções em Março de 2021 por diversas outras nações[12], e isso em decorrência dessa opressão do povo uigur.

4) A Coreia do Norte: talvez o exemplo mais didático sobre as agruras do comunismo. Conforme o site Brasil Escola (UOL)[13], a Coreia constituía um único país, dominado pelos chineses. Em 1910, após ser derrotada pelo Japão, a China perdeu o domínio do território para os japoneses. No entanto, em 1945, com a derrota do Eixo (Alemanha, Itália, Japão) na segunda Guerra Mundial, as tropas japonesas foram expulsas da Coreia, havendo a ocupação dos soviéticos e estadunidenses. Com o início da Guerra Fria (conflito entre Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a Coreia, em 1948, foi dividida conforme os interesses geopolíticos das duas potências mundiais, fato ocorrido também na Alemanha. Foram criadas duas nações autônomas com ideologias geopolíticas contrárias: a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte), com sistema comunista; e a República da Coreia (Coreia do Sul), com o sistema capitalista. Com as divergências políticas e sistemas econômicos antagônicos entre as duas Coreias, aliados às reivindicações territoriais, criou-se um cenário de instabilidade, que acabou eclodindo em um confronto armado entre os dois países. A Guerra da Coreia teve início em 25/11/1950, quando tropas militares norte-coreanas invadiram o território vizinho. Somente em 27/07/1953, através da assinatura do Armistício de Panmunjom, a paz foi reestabelecida. Hoje, cerca de 70 anos depois, os dois países apresentam grandes diferenças socioeconômicas, uma vez que as políticas econômicas adotadas, refletem no desenvolvimento de cada um. Atualmente, a Coreia do Norte necessita de auxilio humanitário de outros países, o setor industrial está em declínio e a agricultura é a principal atividade econômica desenvolvida no país – PIB per capita: US$618; expectativa de vida: 67 anos; população subnutrida: 32%. A Coreia do Sul por sua vez, apresenta grande desenvolvimento econômico, fruto da política democrática estabelecida no fim da década de 1980, investindo maciçamente no sistema educacional, promovendo a industrialização nacional e integrando-se ao quadro dos países chamados de ‘Tigres Asiáticos’ – PIB per capita: US$9.841; expectativa de vida: 78,2 anos; população subnutrida: menor que 5%.

Veja, ilustre leitor, que esses são apenas alguns exemplos. Há outros. E não caia naquela ladainha que a esquerda brasileira gosta de empurrar de tempos em tempos: que os países nórdicos são exemplos de “socialismo que deu certo”… Nada mais deturpado que algo como essa afirmação. É verdade que Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca atingiram sucesso econômico notável. Mas, é totalmente falso que alcançaram-no pelo socialismo!! Convido você a ler uma excelente matéria da Students for Liberty[14] a respeito deste tema. Não se iluda…

A verdade é que enquanto o mundo hoje debate a melhor medida de atuação Estatal no sistema capitalista, algo que varia entre as ideias totalmente liberais de Friedrich Hayek[15] e as ideias mais desenvolvimentistas de John Maynard Keynes[16], aqui no Brasil ainda estamos debatendo a aplicação da teoria econômica de Karl Marx[17] e suas ideias comunistas. Quer dizer, ao invés de estarmos focados em debater entre aquilo que funciona e, portanto, quais seriam os políticos capazes de conduzir o país nesse rumo certo, estamos debatendo entre Lula e Bolsonaro, dois populistas que acreditam em árvore de dinheiro! Anseio mesmo é pelo dia depois de amanhã.

Referências:

[1] https://brasil.un.org/pt-br/91601-declaracao-universal-dos-direitos-humanos

[2] https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-10-maiores-genocidios-da-historia/

[3] https://www.cnnbrasil.com.br/amp/business/2021/07/08/venezuela-96-2-da-populacao-vivem-na-pobreza-e-79-3-estao-em-situacao-extrema

[4] https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/como-o-socialismo-levou-o-pais-de-maior-renda-per-capita-da-america-latina-a-ruina-0ki0a6ymecfcvweo8ncq1douc/

[5] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48457320

[6] http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2013/04/crise-em-cuba-pode-ter-diminuido-diabetes-e-doencas-do-coracao.html

[7] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48457320

[8] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/07/11/manifestantes-protestam-contra-o-governo-em-cuba.ghtml

[9] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2021/07/14/manifestantes-em-cuba-contam-presos-as-dezenas-e-buscam-desaparecidos-em-meio-a-cortes-de-internet.htm

[10] https://revistaforum.com.br/revista/2/a-tragedia-tibetana/

[11] https://super.abril.com.br/especiais/campos-de-concentracao-na-china/

[12] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56495323

[13] https://brasilescola.uol.com.br/geografia/as-duas-coreias.htm

[14] https://studentsforliberty.org/brazil/blog/economia-nordica-explicada-a-diferenca-entre-capitalismo-compassivo-e-socialismo/

[15] https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Hayek

[16] https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Maynard_Keynes

[17] https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx

FOTO: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/22638/o-comunismo-como-uma-religiao-politica

Ricardo Dantas

Ricardo Dantas

Advogado